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Crônicas em preto e dourado: Dois Velhos Pistoleiros – O Último duelo

Crônicas em preto e dourado: Dois Velhos Pistoleiros – O Último duelo

Depois do disparo, veio a queda.

Daí então, tudo que se ouvia era o som do vento. Os ecos de um silêncio devastador.

Drew ‘Breesus’ Brees olhava as nuvens, poucas, estáticas no céu. Olhava sem ver, porque um turbilhão de imagens ocupava sua visão naquele instante. Era uma forma da mente se desvencilhar da dor pungente, uma forma do coração justificar cada segundo percorrido até aquele momento. As memórias iam e vinham, sem harmonia, concorrentes.

Estirado no chão de uma estreita trilha que seguia em meio a um vale, Brees sabia que o momento havia chegado. O fim havia chegado para ele.

Todo fim tem seu começo, e o começo de Brees como pistoleiro nos Santos foi desafiador. Mas desafios são como armadilhas fracas, só os tolos caem. Este homem não sabe o que é uma derrota. Ele pode ter sido derrotado, mas nunca se sentido derrotado. E isso faz toda a diferença. Determinação é algo que ele sempre carregou em seu coldre esquerdo.

O sol saiu de trás de uma nuvem e ele apertou os olhos. Queria ver melhor quem, lá do alto da encosta, é que havia feito o disparo fatal. A mão do homem resplandecia, os dedos trazendo pontos brilhantes. Como dedos não refletem a luz, aquilo só significava uma coisa: anéis. Muitos anéis.

Brees encostou a cabeça no chão novamente, e novas memórias surgiram. Dessa vez, lembrou-se de anos difíceis, com um bando fragmentado, sem talento. Seu gatilho nessa época foi usado como nunca. Mas não foi o bastante. Porém, foi quando ele se estabeleceu como um dos grandes, por todas as milhares de vezes em que sacou sua arma e acertou o alvo.

Ele agora ouvia o barulho de um galope, vindo do seu lado direito. Mexeu a cabeça lentamente e avistou o pistoleiro que havia lhe atingido vindo em sua direção. O pistoleiro foi diminuindo o ritmo à medida que se aproximava do corpo estirado de Brees. Era tempo o suficiente para que este encontrasse refúgio em outras memórias.

Em suas melhores memórias, aliás. De quando derrotou Peyton ‘The Sheriff’ Manning e seu bando, os Colts. Uma vitória contundente, que parecia abrir caminho para uma porção delas. Mas não foi bem assim. Brees perseguiu uma glória como aquela pelo resto de sua vida. Não conseguiu porque a vida, ela é cruel. Ela não escolhe ninguém, a vida só quer nos ver jogar.

E poucos gostam deste jogo mais do que Brees. Um líder, um ícone, alguém que sempre se sentiu responsável por seus homens e por sua cidade. Uma referência. E até por isso exagerou algumas vezes, quis levar tudo nas costas, quis fazer tudo sozinho, quis salvar o dia. Heróis assim só nas histórias de livros antigos, que a gente nem sabe se existiram de verdade. Aqui, heróis são aqueles que cavalgam lado a lado, dispostos a entrar numa cilada uns pelos outros. Ele queria ser um herói à moda antiga; foi um herói, à sua maneira, em preto e dourado. 

Tom ‘Six Rings’ Brady desceu de seu cavalo e parou perto de Brees. Olhava para ele, em silêncio, num misto de satisfação e espanto. Afinal de contas, ‘Breesus’ e os Santos haviam escorraçado os Bucaneiros por duas vezes naquele ano; era espantoso que ele tivesse conseguido sua vingança. Ainda mais de forma tão… melancólica.

Porque o duelo que toda a gente queria ver não aconteceu. Foi ali, num vale deserto, sem espectadores, que Brees se despedia da vida de “jogador”. Brady havia preferido não esperar, sabia que se houvesse uma chance, teria que aproveitá-la. Um pistoleiro como ele, talvez o maior de todos, jamais poderia subestimar um oponente tão poderoso.

– Vá pra casa – disse Brady. – Acabou. Você foi um adversário honrado e eu te respeito muito por isso. Mas é hora de ir.

 Brady ajudou Brees a montar em seu cavalo. Desolado, seguiu caminho. Instantes depois, deu uma breve olhada por cima do ombro, como alguém que sente que deixou algo para trás e que tem a absoluta certeza de que não terá outra chance de reaver.

Depois de muito cavalgar, Brees chegou a um modesto vilarejo. Aproximou-se de um coxo cheio d’água para dar de beber ao seu cavalo antes de prosseguir. Sua casa não estava longe. Uma voz entusiasmada cortou sua desolação como uma faca:

– Papai, papai! Veja! É Drew ‘Breesus’ Brees! Uau!

Um garotinho, debruçado sobre uma cerca, apontava para ele, enquanto o pai arava o chão. Brees se virou e apenas piscou os dois olhos lentamente, pois era incapaz de dar um sorriso. O garoto ainda disse:

– Quando eu crescer quero ser como ele.

Brees ficou encarando o garoto por alguns segundos. Em seguida, puxou as rédeas e virou seu cavalo. Sem olhar para trás, acelerou, resoluto, rumo à direção de casa, onde finalmente, descansou.

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