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Crônicas em Preto e Dourado: Com os cumprimentos do (novo) chef

Crônicas em Preto e Dourado: Com os cumprimentos do (novo) chef

Uma grande flor-de-lis dourada indicava que naquele local se situava o restaurante Santo Prato, famoso por sua excelência e por seu jeito genuíno. Não era uma casa tradicional, mas nos últimos tempos servia bem sua clientela bastante fiel. Esse sucesso recente se devia, em grande parte, ao seu talentoso chef. Cozinheiro nato, era também muito comprometido com a profissão. Era difícil para ele ficar de fora da cozinha, vendo os outros trabalharem. Um “fominha”, como se diz (com a licença do trocadilho).

Por isso, quando ele teve que se afastar por problemas de saúde, a equipe ficou preocupada se o seu substituto poderia assumir o posto sem deixar a qualidade cair tanto, até porque ninguém achava que poderia haver outro chef melhor. Havia dois sous-chefs  no restaurante, um mais jovem e com potencial; outro que nunca passou de um reserva, apesar de criar umas receitas de vez em quando.

O dono do restaurante optou pelo mais velho, contrariando as expectativas gerais. Afinal de contas, se esse bolo não assou até agora é porque deve ter algo errado com os ingredientes, pensava-se.

Mas acontece que a vida mesmo não tem receita de bolo, pra aproveitar mais um trocadilho. Às vezes falta sal, às vezes queima um negócio, às vezes a gente tá lá, cozinhando um feijão, vem a vida e joga um balde de areia na panela. E a gente come.

O tal sous-chef em que ninguém dava muita coisa assumiu o comando e não comprometeu. Noite importante, salão cheio, todo mundo de olho nele. Estava nervoso, mas conhecia cada pedaço daquela cozinha, eram anos ali ajudando como podia. Tinha orgulho.

Sabe o que tem muito em cozinha? Palpite. É complicado. Alguém sempre vai dizer pra gente que já passou do ponto, que falta tempero, que azedou. “Não dá liga, joga fora”, alguém vai dizer. Mas e se por acaso tá tudo certo? Aí a gente estraga o que estava bom, aí começa a achar que não é capaz de cozinhar bem. Tempo e confiança perdidos.

Na vida é parecido, exceto que tem certos pratos que não dá pra repetir. Se acertou no tempero, ótimo; se não, esquece. A vida é mais como um bom restaurante, cada prato é um risco de desagradar o cliente, que não vai querer voltar. Por outro lado, sempre haverá novos clientes. Nosso defeito é achar que quando se atinge uma certa idade, a gente perde o direito de assumir o risco, de ver a porta se abrir enquanto a gente prepara um arroz fresquinho.

Tirando uma coisinha ou outra, o agora chef recebeu os cumprimentos da equipe pela noite bem sucedida. E ele não se enganava; sabia que eles faziam parte daquilo, que sem eles não teria sido assim. Sabia também que cada dia traria uma dificuldade nova. Mas não se importava. Um prato de cada vez e no final todo mundo sai satisfeito.

A felicidade não está na comida em si, mas sim na nossa capacidade – e oportunidade – de poder provar dela.

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