PRÉ-JOGO: A oportunidade existe. A confiança, nem tanto

Em quase qualquer outra divisão da NFL, uma campanha de 2-5 provavelmente já colocaria o New Orleans Saints em uma situação bastante complicada. Na NFC South, porém, a história é diferente. Com a divisão inteira abaixo dos 50% de aproveitamento, New Orleans segue apenas uma vitória atrás da liderança e ainda tem dez partidas pela frente.
É uma oportunidade que existe na tabela. Mas, dentro de campo, os Saints estão longe de apresentar um futebol que convença a torcida de que essa possibilidade pode se transformar em algo concreto.
A derrota para o Pittsburgh Steelers, em Paris, por 16 a 10, foi mais um retrato das dificuldades da equipe. O ataque conseguiu apenas 18 jardas terrestres em 17 tentativas e voltou a desperdiçar oportunidades. A defesa manteve o time competitivo, mas não foi suficiente para evitar mais um resultado negativo.
A semana de descanso trouxe mudanças importantes e, neste domingo, os Saints recebem o Cleveland Browns no Caesars Superdome. O adversário chega com campanha de 5-3, enquanto New Orleans tenta conquistar sua primeira vitória em casa na temporada.
Mudanças na comissão: o jogo terrestre precisa reagir
A saída de T.J. Paganetti foi uma das principais consequências da avaliação feita por Kellen Moore durante a semana de descanso. O treinador era responsável pela coordenação do jogo terrestre e deixa New Orleans em meio a uma temporada na qual correr com a bola raramente foi um fator positivo.
O desempenho contra Pittsburgh foi especialmente preocupante. Foram apenas 18 jardas em 17 carregadas, uma média de pouco mais de uma jarda por tentativa. É difícil construir um ataque equilibrado quando o jogo terrestre produz tão pouco e deixa o quarterback em situações previsíveis.
Mas seria simplificar demais colocar toda a responsabilidade nas costas de Paganetti. As dificuldades envolvem especialmente a linha ofensiva e a execução em campo. O problema é que, independentemente de onde esteja a maior parcela da culpa, a produção precisa melhorar.
Com a saída do coordenador, Brendan Nugent, treinador da linha ofensiva, passa a ter papel importante na reorganização do trabalho. A expectativa é que a comissão consiga aproximar as diferentes responsabilidades e encontrar maneiras mais eficientes de utilizar os corredores.
A chegada de Audric Estimé também oferece uma alternativa. O running back, que estava com a equipe no início da temporada, retorna após ser dispensado pelo Cleveland Browns. Com C.J. Donaldson fora da partida por conta de lesões no ombro e protocolo de concussão, Estimé pode ganhar espaço, especialmente nas situações de curta distância.
A mudança na comissão, por si só, não resolve o problema. O que precisamos observar é se os Saints conseguem apresentar uma evolução real na execução, na criação de espaços e na capacidade de sustentar campanhas ofensivas. Até aqui, o jogo terrestre tem sido uma das maiores limitações da equipe.
Daniel Carlson fora, Charlie Smyth de volta em campo
As mudanças também chegaram aos special teams. Depois de apenas sete partidas, Daniel Carlson foi dispensado pelos Saints, abrindo espaço para Charlie Smyth assumir a posição de kicker.
A decisão não chega a surpreender. Carlson desperdiçou quatro field goals e dois extra points durante a temporada. Converteu apenas 8 de suas 12 tentativas de field goal e 16 de 18 pontos extras, incluindo uma tentativa de 52 jardas contra Pittsburgh, em Paris. Em um ataque que já encontra dificuldades para chegar à end zone, deixar pontos para trás torna a situação ainda mais complicada.
A aposta agora é em Charlie Smyth, de novo, que recebeu a confirmação de Kellen Moore de que será o responsável pelos chutes neste domingo. O irlandês já teve partidas pela equipe na temporada passada, depois que Blake Grupe foi dispensado, e agora ganha uma nova oportunidade de mostrar que pode ocupar a posição.
Depois de perder a disputa pela posição na pré-temporada, o jogador terá uma nova oportunidade justamente em um momento de necessidade da franquia.
É difícil dizer se Smyth será a solução definitiva, mas acredito que não. O fato é que os Saints precisam de mais segurança nessa posição.
Jogar no Superdome ainda é uma vantagem?
Durante muitos anos, jogar em Nova Orleans significava enfrentar um ambiente particularmente difícil para qualquer adversário. O barulho da torcida, a atmosfera do Superdome e a conexão entre equipe e cidade ajudaram a construir uma das identidades mais reconhecidas da NFL.
Mas essa realidade está distante do momento atual.
Os Saints ainda não venceram em casa nesta temporada, acumulando três derrotas no Superdome. Para uma franquia que construiu boa parte de sua identidade recente em torno da força de jogar diante de sua torcida, esse é um cenário bastante incômodo.
E não estou falando apenas dos resultados. O desempenho apresentado nos jogos em casa foi horrível e a torcida, decepcionada, deixou a arquibancada mais cedo por mais de uma vez. O torcedor pode até aceitar uma derrota quando vê um time competitivo, mas é muito mais difícil encontrar motivos para acreditar quando os mesmos problemas se repetem semana após semana.
Cleveland chega com campanha de 5-3, mas também apresenta dificuldades ofensivas. É um adversário que pode ser batido, embora isso não signifique que a tarefa será simples.
Do lado dos Saints, a situação na divisão ajuda a manter a esperança. Carolina lidera a NFC South com campanha de 3-4, enquanto Tampa Bay e Atlanta estão em 3-5. New Orleans aparece em último, com 2-5, mas está somente uma vitória atrás.
A classificação mostra como a divisão é fraca e está aberta. Na sequência, a equipe terá outro compromisso em casa, justamente contra Carolina, no dia 15 de novembro. Ou seja, uma sequência que poderia mudar os rumos da divisão. O problema é o Saints depender de si.
Jordyn Tyson: finalmente chegou a hora?
Talvez nenhuma notícia durante a semana tenha despertado tanta expectativa quanto o retorno de Jordyn Tyson aos treinamentos.
Escolhido na oitava posição geral do Draft de 2026, o recebedor chegou a Nova Orleans cercado de expectativa. Seu talento e sua capacidade de produzir jogadas explosivas eram vistos como elementos importantes para complementar Chris Olave e oferecer mais alternativas ao ataque de Kellen Moore.
Mas uma lesão na coxa, sofrida durante um treinamento conjunto com o Jacksonville Jaguars em agosto, impediu que o novato disputasse qualquer partida até aqui. Tyson foi colocado na lista de lesionados e só voltou a treinar nesta semana.
A boa notícia é que ele participou das atividades durante a semana. A notícia menos animadora é que sua participação foi limitada nos três treinamentos, e o jogador aparece como questionável para o confronto de domingo. A decisão final sobre sua estreia ainda depende da avaliação da comissão técnica.
Chris Olave continua sendo a principal referência do jogo aéreo, enquanto Devaughn Vele também pode oferecer uma alternativa importante. A combinação dos três recebedores tem potencial para dar uma nova dimensão ao ataque dos Saints.
O próprio Tyler Shough demonstrou entusiasmo com a possibilidade de jogar ao lado do novato, mas também reconheceu que será necessário desenvolver entrosamento. Afinal, os dois praticamente não tiveram oportunidades de trabalhar juntos durante a temporada.
É importante controlar as expectativas. Tyson não entra em campo há meses e não deve ser tratado como a solução imediata para os muitos problemas ofensivos. Mesmo que esteja disponível contra Cleveland, será necessário dar tempo para que ele recupere o ritmo e encontre seu espaço no ataque.
Sobre o confronto
O confronto entre Saints e Browns também ganhou um ingrediente especial durante a semana: a confirmação de que Shedeur Sanders será o quarterback titular de Cleveland.
Deshaun Watson entrou no protocolo de concussão após apresentar sintomas durante a semana e, apesar de ter voltado a treinar de forma limitada na sexta-feira, não foi confirmado como titular.
Um desafio será enfrentar uma defesa de Cleveland que tem demonstrado capacidade de dificultar a vida dos ataques adversários.
Os Browns possuem uma linha defensiva física e uma secundária que conta com nomes importantes, como Denzel Ward. Para Tyler Shough, será fundamental tomar decisões rápidas e evitar situações nas quais a defesa consiga antecipar o que vem pela frente.
O caminho para New Orleans passa por diversificar as opções ofensivas, o que não conseguiu fazer até hoje. Mas tudo começa pela linha ofensiva. Kelvin Banks Jr. voltou aos treinamentos nesta semana, mas ainda aparece como questionável por conta da lesão no tornozelo. Asim Richards também está listado como questionável, devido a um problema no polegar.
A situação dos tackles merece atenção especial. Shough precisa de proteção para conseguir desenvolver as jogadas, principalmente contra uma defesa que pode explorar eventuais dificuldades na proteção pelo lado de fora.
E, claro, o jogo terrestre precisa ajudar. Se New Orleans conseguir estabelecer alguma consistência com Kamara e Estimé, poderá evitar que o ataque fique previsível e facilitar o trabalho do quarterback.
Do outro lado, a principal mudança está justamente no comando do ataque adversário.
Shedeur Sanders terá a oportunidade de começar uma partida como titular nesta temporada.
Isso não significa que será uma tarefa simples. Sanders já demonstrou capacidade de produzir jogadas. A defesa dos Saints não pode entrar em campo esperando que a mudança de titular resolva seus próprios problemas.
O principal desafio de New Orleans continua sendo o jogo terrestre. Os Saints permitem 139,4 jardas terrestres por partida, ocupando a 29ª posição da liga. E Cleveland possui em Quinshon Judkins uma peça importante para explorar justamente essa fragilidade.
Se Judkins conseguir estabelecer o jogo terrestre, os Browns poderão controlar o relógio e evitar que Sanders seja colocado em situações difíceis. Por isso, a prioridade da defesa precisa ser fechar os espaços e obrigar Cleveland a depender mais do jogo aéreo.
É aí que entra a importância da pressão sobre o quarterback.
Chase Young vem sendo um dos grandes destaques da defesa, com sete sacks na temporada, enquanto Carl Granderson soma outros 5,5. A dupla tem sido uma das poucas constantes positivas de New Orleans e precisará continuar produzindo.
A NFC South, a terra de ninguém
New Orleans está em último lugar na NFC South, mas apenas uma vitória atrás da liderança. Em praticamente qualquer outra divisão, a conversa sobre a temporada provavelmente seria muito diferente. Em New Orleans, ainda existe uma disputa ao alcance.
Mas estar matematicamente na briga não significa a mesma coisa que jogar como um time capaz de chegar a algum lugar.
A primeira metade da temporada deixou problemas evidentes e esfriou qualquer animação que a torcida teria. O ataque tem dificuldade para produzir, o jogo terrestre não consegue ser fator e a defesa, apesar de alguns bons momentos, também apresenta fragilidades importantes. A ausência de vitórias em casa torna o cenário ainda mais frustrante.
As mudanças feitas durante a semana de descanso mostram que a franquia reconhece pelo menos parte dessas dificuldades. A saída de Paganetti, a dispensa de Carlson e a chegada de novas alternativas ao elenco podem ajudar. Mas nenhuma dessas movimentações é a solução.
E é justamente esse o ponto para a torcida neste momento. Não se trata de esperar uma grande virada de chave ou de acreditar que uma vitória contra Cleveland vai mudar tudo. Trata-se de observar se os Saints conseguem apresentar um futebol mais consistente, competitivo e capaz de sustentar uma sequência de resultados.
A NFC South está oferecendo uma oportunidade que talvez não existisse em outra divisão. New Orleans ainda tem tempo e jogos importantes pela frente, incluindo o confronto direto contra Carolina na próxima semana. Mas a tabela não joga, e a margem para continuar desperdiçando oportunidades é cada vez menor.
Neste domingo, queremos ver uma vitória no Superdome. Mais do que isso, queremos ver um desempenho que finalmente dê à torcida algum motivo concreto para acreditar que essa disputa ainda pode levar a algum lugar.
A porta continua aberta. Agora, os Saints precisam mostrar que têm futebol para atravessá-la.
Who Dat!
Texto de Mateus Bernardes
Imagem de capa: Late afternoon sunlight hits the upper section of Stade de France as the New Orleans Saints play the Pittsburgh Steelers in Paris on Sunday, October 25, 2026. (STAFF PHOTO BY CHRIS GRANGER)