PRÉ-JOGO: Saints desembarca em Paris em busca de inspiração nas raízes francesas

Uma relação histórica que se tornou parte da identidade. New Orleans foi fundada pelos franceses em 1718 e recebeu seu nome em homenagem a Philippe II, Duque de Orléans. A fleur-de-lis era um dos grandes símbolos da monarquia francesa e acabou se tornando também uma representação da herança francesa da Louisiana. Quando a franquia foi criada, em 1967, os Saints não precisaram inventar um símbolo: eles pegaram algo que já representava a própria cidade.
Neste domingo, os Saints viajam a Paris para o primeiro jogo da história da NFL na França. Em 2023, os Saints escolheram o mercado francês para explorar os direitos internacionais de marketing por meio do Global Markets Program da NFL, iniciativa que permite às franquias desenvolver sua presença comercial e ampliar o relacionamento com torcedores fora dos Estados Unidos. O adversário será o Pittsburgh Steelers, no Stade de France. Além do caráter histórico, o confronto coloca frente a frente duas equipes que precisam encontrar maior consistência, ainda que por motivos diferentes.
Para New Orleans, a missão é conquistar a primeira sequência de duas vitórias consecutivas na temporada e chegar à semana de folga com mais tranquilidade para trabalhar. Para isso, será necessário superar uma defesa capaz de pressionar o quarterback, estabelecer o jogo terrestre e, principalmente, evitar que os problemas já conhecidos voltem a comprometer o resultado.
Uma vitória importante, mas ainda insuficiente
O placar de 34 a 27 contra os Giants trouxe motivos para comemorar, especialmente pela reação ofensiva depois de New Orleans sair perdendo por 10 a 0. Os Saints marcaram 34 pontos consecutivos e chegaram a abrir uma vantagem de 24 pontos antes de permitir a reação do adversário no último quarto.
O ataque apresentou seu melhor desempenho terrestre da temporada até então, com 175 jardas corridas. A equipe também mostrou maior disposição para utilizar formações com mais jogadores de bloqueio, oferecer ajuda aos tackles e criar condições para que as corridas funcionassem. Tyler Shough terminou com quatro touchdowns, três em passes e um em uma corrida, enquanto Kendre Miller contribuiu para dar mais equilíbrio ao ataque.
A defesa também teve uma atuação produtiva, com cinco sacks e três interceptações. Martin Emerson Jr. foi um dos destaques, com duas interceptações e duas defesas de passe , desempenho que lhe rendeu o prêmio de Jogador Defensivo da Semana da NFC.
Entretanto, o último quarto voltou a expor uma fragilidade preocupante. Os Saints permitiram 17 pontos dos Giants e transformaram uma vitória que parecia controlada em um confronto apertado até o fim.
O problema, portanto, não se resume ao retrospecto de duas vitórias e quatro derrotas que a equipe apresentava antes desta rodada. A preocupação está na maneira como os resultados são construídos: dificuldades para começar as partidas, períodos de pouca produção ofensiva e problemas para administrar vantagens.
Essa é uma questão particularmente relevante para Kellen Moore. O treinador precisa demonstrar que consegue corrigir falhas recorrentes e fazer a equipe evoluir ao longo da temporada. Os Saints não precisam apresentar um futebol perfeito, mas precisam mostrar progresso, preparação e capacidade de executar um plano de jogo durante os quatro quartos.
A partida em Paris oferece justamente esse tipo de teste.
O jogo das trincheiras
Um dos pontos mais importantes para o resultado estará no confronto entre as linhas. Pittsburgh conta com uma defesa que tem capacidade para pressionar o quarterback e dificultar a construção das jogadas, enquanto New Orleans precisa provar que o desempenho terrestre contra os Giants pode ser repetido diante de um adversário mais exigente.
Os Saints não podem abandonar as formações pesadas que ajudaram a destravar o ataque na última rodada. Utilizar mais jogadores de bloqueio, incluindo tight ends e formações com maior presença de atletas próximos à linha de scrimmage, pode ajudar a proteger Shough e trazer mais opções para o jogo terrestre. Essa abordagem também reduz a previsibilidade do ataque, que frequentemente se torna mais vulnerável quando depende demais do jogo aéreo.
O sucesso terrestre, porém, precisa começar na linha ofensiva. A atuação dos bloqueadores foi melhor contra os Giants, inclusive com destaque para o rookie Jeremiah Wright, que entrou durante a partida no lugar de Cesar Ruiz, que deixou o jogo lesionado, e respondeu muito bem, contribuindo principalmente com o jogo terrestre.
Ruiz treinou apenas na sexta-feira, com participação limitada, e tem status questionável para a partida. Com isso, Wright pode ganhar uma oportunidade maior em Paris. Mesmo que Ruiz esteja apto a jogar, o desempenho do jovem guard merece atenção: ele mostrou potencial como bloqueador terrestre, embora ainda precise provar que consegue manter esse nível diante de defesas mais fortes e oferecer a mesma segurança na proteção ao quarterback.
A diferença entre os dois perfis é relevante. Ruiz vinha apresentando números consistentes na proteção de passe, enquanto Wright teve uma amostra muito menor de participação.
Um adversário que pressiona de diferentes formas
A defesa de Pittsburgh apresenta outro desafio: sua capacidade de variar a pressão e as coberturas para dificultar a leitura do quarterback.
O coordenador defensivo Patrick Graham vem buscando uma identidade para o setor, alternando estratégias conforme o adversário. Isso significa que os Saints precisam estar preparados tanto para a pressão adicional de linebackers e defensive backs quanto para situações em que a defesa recua jogadores para cobrir os espaços no fundo do campo.
O blitz tem sido uma das ferramentas utilizadas pelos adversários para desestabilizar o ataque de New Orleans. Quando Shough tem tempo para ler a defesa e tomar decisões, consegue explorar os espaços e distribuir a bola. Sob pressão, porém, seu rendimento cai consideravelmente.
É por isso que a proteção será tão importante. Se Pittsburgh conseguir pressioná-lo sem precisar comprometer muitos jogadores no blitz, poderá manter mais atletas na cobertura e dificultar a progressão das jogadas. Se os bloqueios segurarem os pass rushers, Shough terá melhores condições de explorar os espaços deixados pela defesa.
A resposta dos Saints deve começar pela variedade ofensiva. Corridas bem executadas, passes rápidos e formações que ajudem a identificar a origem da pressão podem reduzir a vantagem de Pittsburgh.
Outro fator será a capacidade de começar bem a partida. As dificuldades ofensivas nos primeiros períodos se tornaram um problema recorrente durante o trabalho de Moore. Contra uma defesa que pode alternar entre diferentes coberturas e formas de pressionar, entrar em campo com um plano claro e executá-lo desde a primeira campanha será fundamental.
O outro lado da moeda
Do outro lado, o principal objetivo de New Orleans será impedir que Pittsburgh estabeleça seu jogo terrestre. Jaylen Warren é uma peça importante, e sua produção terrestre ajuda Pittsburgh a controlar o ritmo das partidas, assim como Rico Dowdle, que também aparece como uma opção.
Os Saints precisam limitar esse primeiro estágio do ataque. Se conseguirem reduzir a eficiência das corridas, poderão colocar Rodgers em mais situações previsíveis de passe e aumentar, assim, as oportunidades de Chase Young e Carl Granderson, que serão peças fundamentais para o sucesso defensivo de New Orleans mais uma vez. Os dois aparecem entre os principais jogadores da equipe em sacks.
É nesse contexto que a volta de Kaden Ellis ganha importância. O linebacker retornou aos treinos depois de perder três partidas por uma lesão na panturrilha e deve ser um grande reforço para a defesa. Além da contribuição com a defesa terrestre, ele exerce uma função importante na comunicação e na organização da defesa.
A cereja do bolo é produzir turnovers. Em 2025, New Orleans sofreu mais turnovers do que forçou, terminando a temporada com diferença de -4. Nesta temporada, a equipe também tem diferença negativa. Até o momento, foram 12 turnovers cometidos e apenas nove forçados, sendo quatro na última partida contra os Giants, na qual um cornerback chamou a atenção.

Uma grata surpresa: Emerson Jr.

A atuação de Martin Emerson Jr. contra os Giants abre outra questão para a comissão técnica: como aproveitar melhor um jogador que mostrou capacidade de impactar o jogo.
O cornerback terminou a partida com duas interceptações, dois passes desviados e sete tackles. Seu desempenho foi especialmente relevante porque mostrou agressividade na disputa pela bola e capacidade de aproveitar erros do quarterback adversário.
A concorrência na secundária, entretanto, continua aberta. Kool-Aid McKinstry e Quincy Riley, apesar de receberem críticas por algumas atuações neste ano, seguem como opções importantes, e o trabalho de Emerson não significa necessariamente que um deles perderá a posição de titular. Ainda assim, o desempenho recente justifica uma participação mais expressiva na rotação.
Contra Pittsburgh, a secundária precisará lidar com um ataque que pode explorar diferentes opções de passe, especialmente se o jogo terrestre obrigar a defesa a respeitar a corrida. A capacidade de contestar recepções e produzir turnovers pode fazer diferença, precisando também evitar faltas e permitir poucas jogadas explosivas.
O desafio de Emerson Jr. e dos demais defensores será transformar o bom momento individual em consistência coletiva.
O peso para Kellen Moore
A primeira partida em Paris tem importância que vai além da campanha de New Orleans. Uma vitória que poderia ter trazido mais tranquilidade e confiança no trabalho de Kellen Moore acabou reforçando velhos problemas.
As cobranças de Gayle Benson sobre a necessidade de responsabilização dentro da organização colocaram o desempenho da comissão técnica sob maior atenção. Moore precisa mostrar que consegue começar os jogos com um plano mais eficiente e impedir que a equipe perca o controle quando constrói uma vantagem. A partida contra os Giants mostrou que o time tem condições de produzir ofensivamente, mas também confirmou a falta de consistência.
A verdade é que uma vitória diante dos Steelers pode ajudar a baixar a tensão em New Orleans e criar um ambiente mais favorável para a equipe trabalhar durante a semana de folga, estudar os problemas e implementar mudanças.
Viveremos dias mais tranquilos?
As últimas comemorações acabaram em derrotas humilhantes. Será que os Saints vão estragar a festa do primeiro jogo em solo francês também? Olha, a equipe não precisa resolver todos os seus problemas em uma única partida, mas, a cada semana que passa, o tempo para dar um rumo a essa temporada vai diminuindo.
O torcedor viu coisas boas nesta temporada, mas a sequência de atuações a partir do último quarto contra os Raiders gerou questionamentos sobre o rumo da organização. O torcedor não precisa de muito para criar esperanças, mas Moore precisa mostrar que é capaz de aprender com os erros, criar um desempenho sustentável e transformar os sinais positivos em resultados mais consistentes.
Para vencer, New Orleans precisará ser disciplinado nas trincheiras, proteger Shough e impedir que Rodgers controle o ritmo do confronto.
O próximo capítulo da nossa história em 2026 será neste domingo, em um horário diferente, às 10h30 (horário de Brasília), no Stade de France, em Paris. A Ge TV e o SporTV transmitem a partida ao vivo, além do NFL Game Pass via DAZN.

Texto de Mateus Bernardes
Imagem de capa: Check out photos of New Orleans Saints fans showing their Black and Gold pride in Paris ahead of the Saints Week 7 game against the Pittsburgh Steelers. – Michael DeMocker/New Orleans Saints