Coluna do Zé

Coluna do Zé: A história de dois quarterbacks

Jose Eduardo Zanon
Jose Eduardo Zanon 19 set 2026 · 6h atrás

Salve, torcedor dos Saints!

É possível gostar e odiar um jogo ao mesmo tempo? Eu acho que sim.

Foi uma derrota difícil, no último lance do jogo, que poderia ser uma vitória difícil, no último lance do jogo. Na estreia da temporada 2026-27, o New Orleans Saints viajou para enfrentar o Detroit Lions e perdeu, na prorrogação, por 31 a 30.

Eu gostei do final do jogo. Mas não gostei do resultado. Mas poderia ter sido o contrário. Se o time tivesse ganho o jogo, eu teria gostado do resultado e não teria gostado do jogo. Você me entende?

Foi um jogo padrão dos Saints dos últimos anos. E a principal história a se contar neste jogo é a história dos dois quarterbacks que lideraram o time ao longo do jogo: Tyler Shough.

“Vamos pensar na próxima temporada”

Um começo de jogo não esperado, mas o torcedor já está acostumado. O que ninguém esperava, acredito eu, é que o quarterback Tyler Shough, agora em seu primeiro ano como titular dos Saints, fosse tão ruim. E ruim ainda imputa muita qualidade para o que Shough mostrou nos primeiros dois quartos e metade do terceiro quarto de jogo.

Se fosse para ter aquela atitude, parecendo o personagem do John Travolta em Pulp Fiction, ao chegar na casa de Mia Wallace, era melhor não ter entrado em campo. Toda a confusão, que no filme demora por volta de 25 segundos, Shough mostrava em 3 segundos, que era o tempo que ele tinha até se desesperar de vez, lançar a bola errado ou tomar um sack.

O recebedor Chris Olave (12) em um dos lances em que alguém da torcida falou “Mataram o Olave” (Michael C. Herbert / New Orleans Saints)

Tyler Shough e o ataque dos Saints tiveram dificuldades para encontrar ritmo nas primeiras campanhas, conseguindo apenas uma recepção de 9 jardas para Devaughn Vele, sua única conquista de primeira descida no primeiro quarto.

A defesa dos Lions forçou erros e Shough teve uma sequência muito ruim, completando 10 de 23 passes para apenas 85 jardas, com 2 interceptações e 1 fumble perdido, até a metade do terceiro quarto, quando os Saints perdiam por 21 a 0 e somavam apenas 101 jardas totais no ataque.

Nessa hora, acredito que todos, mesmo alguns tendo ainda alguma ponta de esperança, já tinham em sua mente a expressão “o melhor quarterback dos Saints é aquele que não está em campo”.  Shough chegou a lançar um passe para o center Erik McCoy. Nessa hora, eu desisti. A temporada tinha acabado ali.

O recebedor Devaughn Vele (14) sendo importante na ausência do calouro Jordyn Tyson e anotando um touchdown na reação dos Saints no último quarto (Michael C. Herbert / New Orleans Saints)

“Vamos ganhar o Super Bowl”

Ainda bem que sou péssimo de previsões, de palpites, de bolões e coisas assim. Eu teria apostado que o New Orleans Saints “já era” para a temporada de 2026 e era hora de pensar no Draft de 2027. Foi nesse ponto de bad trip que cheguei com o fumble no meio do terceiro quarto, que rendeu o touchdown de Amon-Ra St. Brown na campanha seguinte dos Lions, o terceiro deles no jogo. Os outros dois foram anotados pelo running back Jahmir Gibbs, o segundo sendo em decorrência da segunda interceptação lançada por Shough.  

Só que a esta hora, pelo desempenho de Tyler Shough e do ataque no primeiro tempo, poderia estar, sem brincadeira, uns 35 a 0 para o Detroit Lions. Mas um fator foi determinante para estar apenas 21 a 0. A defesa do New Orleans Saints. Se até aquele momento, Shough fez de tudo para conseguir a derrota, a defesa estava fazendo o máximo possível para evitar essa derrota. E, para mim, fez muito bem, mas turnovers no campo de defesa são fatais.

Por conta da defesa dos Saints e da folga no placar, os Lions afrouxaram a pressão. E pagaram por isso. O custo quase foi muito caro.

O running back Kendre Miller (5) correndo reto para anotar seu touchdown enquanto Tyler Shough (6) já comemorava ao fundo (Michael C. Herbert / New Orleans Saints)

Para a campanha seguinte ao 21 a 0, os Saints escalaram Tyler Shough como quarterback. E deu certo. Deu muito certo. Impressionante como o ataque passou a jogar muito futebol. Eu poderia repetir que os Saints são mesmo o time do garbage time. Mas não foi o caso.

A partir da metade do terceiro quarto, o ataque comandado por Kellen Moore mudou completamente. Nas últimas seis campanhas, o novo quarterback jogou em alto nível, explorando muito bem o recebedor Chris Olave.

Nessa arrancada, Shough completou 25 de 33 tentativas de passe para 325 jardas, 3 touchdowns e nenhuma interceptação. Ele coroou a reação no tempo regulamentar com um passe para touchdown de 9 jardas para o tight end Juwan Johnson, empatando o jogo em 24 a 24 a pouco mais de um minuto do fim. Os outros dois touchdowns dos Saints foram anotados pelo running back Kendre Miller, numa corrida de 8 jardas pelo meio da linha defensiva dos Lions para a direita, e pelo recebedor Devaughn Vele, em um passe da linha de uma jarda no canto esquerdo da end zone, coisa linda de passe. A vitória poderia ter vindo em um chute de 62 jardas de Daniel Carlson, mas não foi dessa vez.

As duas torres, os tight ends Juwan Johnson (83) e Noah Fant (87) anotaram um touchdown cada e prometem para a temporada (Michael C. Herbert / New Orleans Saints)

Na prorrogação, ele ainda conectou um passe de 8 jardas para touchdown com o tight end recém chegado Noah Fant, mas a conversão de 2 pontos seguinte falhou, selando o placar, já que os Lions haviam anotado um touchdown (novamente com Amon-Ra St. Brown) na sua vez.

E a temporada começou daquele jeito. O New Orleans Saints frustrando seu torcedor, depois dando uma esperança doida (olha ela aí de novo), e quebrando nossos corações no último lance. Já vimos isso infinitas vezes, ano após ano. Infelizmente, a vitória não veio, por muito pouco, mas a resiliência e o poder de reação do time foram extraordinários.

Números da partida

Ao final, Tyler Shough completou 35 de 56 tentativas de passe para 410 jardas, seu recorde pessoal, com três touchdowns, duas interceptações e um fumble perdido. O running back Kendre Miller marcou o primeiro touchdown do time, uma corrida de 8 jardas no terceiro quarto. O wide receiver Devaughn Vele anotou um touchdown em um passe de uma jarda, e teve sete recepções para 69 jardas.

Chris Olave teve 10 recepções para 182 jardas (melhor marca na carreira), enquanto o running back Travis Etienne Jr. teve dificuldades e apenas 46 jardas em nove corridas e sete recepções para 32 jardas.

O campo ficou curto, a marcação estava muito boa (dava para marcar interferência de passe?) e o recebedor calouro Bryce Lance não conseguiu anotar a conversão de dois pontos para a vitória (Michael C. Herbert / New Orleans Saints)

O tight end Juwan Johnson teve três recepções para 54 jardas e anotou um touchdown, assim como Noah Fant, que teve 33 jardas em quatro recepções. O recebedor calouro, Bryce Lance, teve 42 jardas em 3 passes recebidos, sendo uma conversão de terceira descida para 19 jardas fundamental, e o passe que seria o da vitória foi para ele no canto direito da end zone, uma pena que a cobertura funcionou e não deu certo.

O running back dos Lions, Jahmyr Gibbs, teve duas corridas para touchdown de 1 jarda e 156 jardas em 29 carregadas. Goff completou 26 de 39 passes para 206 jardas e dois touchdowns, lançados para o recebedor Amon-Ra St. Brown, que teve apenas 67 jardas em 10 recepções.

Quero destacar aqui um ponto importante: tudo seria diferente se a arbitragem não tivesse inventado uma regra para anular um touchdown da defesa, anotado pelo safety Jonas Sanker, depois de um fumble forçado pelo defensive end Chase Young sobre Jared Goff, ainda no primeiro tempo. A arbitragem reviu, assinalando a intenção de passe para a frente em um passe para trás. Isso mesmo que você leu.

A impressão que deu é que a NFL inventou uma interpretação da regra para anular o touchdown da defesa dos Saints depois do sack (anularam até o sack) de Chase Young (99) em Jared Goff (Michael C. Herbert / New Orleans Saints)

Foi quase. E agora?

Pois é. Quase deu. Por muito pouco. Se a chamada do último lance tivesse funcionado, hoje estaríamos celebrando uma vitória e criticando a postura do time. Mas a vitória não veio, e estou aqui elogiando a capacidade de reação do time e criticando a postura ridícula do ataque no início do jogo.

E aqui temos que criticar e elogiar tanto Tyler Shough quanto Kellen Moore. A derrota foi culpa deles, e a vitória quase veio por mérito deles.

Peças importantes, como Alvin Kamara e Cam Jordan já podem voltar para o próximo jogo, no domingo, dia 20 de setembro, às 14 horas (de Brasília), no M&T Bank Stadium, em Maryland, contra o Baltimore Ravens de Lamar Jackson e Derrick Henry.

Será um teste desafiador para a defesa. E será uma chance para o ataque mostrar que as expectativas eram justificadas.

Bora, Saints!

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Foto de capa: Os quarterbacks do New Orleans Saints, Tyler Shough (Michael C. Herbert / New Orleans Saints)

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